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28 de Maio de 2020

Alienação Parental autoinflingida: a culpa nem sempre é de Eva.

Quando o(a) filho(a) não deseja conviver com o pai, a culpa é sempre da mãe?

Mariana Regis, Advogado
Publicado por Mariana Regis
há 10 meses

Infelizmente, a acusação (ou ameaça de acusação) de alienação parental tem se transformado em um recurso perverso na mão de homens com perfil abusivo, alçando mães ao lugar de ressentidas pelo término de um relacionamento, consolidando o típico reforço de estereótipo de gênero tão comum nas relações entre ex-casais tão veiculado nas narrativas judiciais.

O que quase ninguém fala, é que, muitas vezes, a criança não deseja conviver ou simples sair com o pai devido a condutas desagradáveis do próprio genitor em relação ao filho ou filha.

Após a separação, alguns pais não conseguem se vincular aos seus filhos devido a suas próprias dificuldades emocionais, ou por terem personalidades abusivas mesmo, caso em que chegam a maltratá-los (as).

Existe um nome para explicar este fenômeno: alienação autoinfligida (ou autoalienação) que ocorre quando é o genitor que se sente ou se diz “alienado” provoca, com a sua conduta, o afastamento do próprio filho. Ou seja: o “alienado” é responsável por sua “alienação”.

Não há, nestes casos, que se falar em responsabilidade da mãe pela quebra deste vínculo ou afastamento - embora o pai jamais assuma que deu causa à este resultado, que é a própria rejeição do filho.

Infelizmente, como os homens são socializados na cultura da culpabilização e responsabilização materna por qualquer comportamento infantil que escape ao que se considera ideal ou frustre suas expectativas, o recurso mais fácil - e que os mantém na posição de não assumirem suas falhas - é acusar a ex-companheira de alienação parental, posando de injustiçado.

Não raro pais que se esquivaram às suas responsabilidades após a separação ou ao constituírem nova família agora se colocam como vítimas de alienação parental.

Escuto tanto esta realidade em escritório que decidi trazer contextos comuns em que a situação de autoalienação ocorre:

1 - Após a separação, muitos pais negligenciam seus filhos/as, passando longos períodos sem vê-los (as) ou ligar.

Em algum momento, este pai, que se tornou um estranho, passa a querer “reconquistar” o filho abandonado/negligenciado.

Contudo, as mágoas da criança não permitem uma aproximação tão imediata e diante da impossibilidade de refazer um vínculo sincero, este homem culpa a mãe.

(Como se o filho não tivesse capacidade em formar suas impressões, em reagir conforme o que receberam.).

2 - O autoalienador trata os filhos de forma violenta, fazendo com que as crianças/adolescentes se afastem por ser a única forma que encontram para se defender.

Há pais que criam situações para que os filhos se sintam excluídos, diminuídos, dentro da sua própria casa, muitas vezes diante da nova família.

Algumas das manifestações presentes na relação do alienador autoinfligido com os filhos (a) são o desprezo, o descuido (que expõe a riscos), a violência física e/ou verbal, agressividade e/ou depreciações.

Assim, a criança/adolescente deixa de querer conviver com o pai.

Mas, ao invés de reconhecer a sua contribuição para a situação, este pai deduz que este afastamento seria fruto de alienação materna e não do seu próprio comportamento desagradável.

3- Outro contexto delicado (e comum) é quando um homem, que mantinha relacionamento extraconjugal, casando-se ou namorando em seguida com a mulher que é tida como “causa da separação”, exigindo, de forma imediata, uma convivência dos filhos com a sua nova companheira.

Muitas crianças, filhas deste casamento anterior, ainda imaturas, incapazes de entender a dinâmica dos relacionamentos conjugais e a nova conjuntura familiar, reagem de uma forma defensiva, rejeitando o novo relacionamento do pai e preferindo não estar com ele caso a nova parceira esteja presente e se sentem muito magoadas com esta tentativa de aproximação.

Muitos homens não conseguem avaliar o estado emocional dos seus filhos e logo julgam que é a mãe quem está promovendo este sentimento de repulsa das crianças, "fazendo a cabeça das mesmas contra ele e sua nova companheira".

4- Outro quadro bastante comum se dá quando a mãe refaz a sua vida conjugal e a figura do atual companheiro para a ser uma referência paterna para os seus filhos também. Muitos homens, inconformados com o fato da sua ex - parceira seguir a vida, e do seu filho ter desenvolvido um afeto por seu atual companheiro - ainda que isto não rompa ou dificulte seu vínculo de afeto com a criança - passam a culpabilizar não apenas a mulher, mas o companheiro da ex como alienador.

Temos que estar atentxs para não confundir as duas figuras, rotulando de alienação parental a prática de autoalienação.

Acredito que há casos em que o pai não tenha recursos subjetivos responsabilidade pelo distanciamento afetivo ou recusa de convívio do seu filho, mas infelizmente vejo um movimento muito frequente de homens abusivos que tentam transferir a responsabilidade deste distanciamento ou rejeição para a mãe, chegando a forjar provas para fortalecer a narrativa de alienação parental e, como já mencionei por aqui, continuar violentando suas exs-parceiras.

Quando o homem coloca a mulher no lugar de agressora sem qualquer respaldo, ele se afasta do processo dialógico necessário para construir uma solução para o problema familiar do qual ele é parte. Punir a mãe por uma prática que jamais empreendeu significa produzir sofrimento para a criança também.

O que sinto de mais cruel nestes contextos é que esta mulher, que teve que fazer frente sozinha aos cuidados afetivos e financeiros desta criança, lidando com o sofrimento do seu filho, passa a ser acusada por aquele que esteve ausente, negligente ou foi violento, causando ainda mais dano e prejuízo emocional aos seus filhos.

Uma família envolta neste contexto está vivendo uma problemática que demanda uma análise sensível para ser solucionada. A perspectiva reducionista, que visa rotular a mãe como alienadora, agressora e o pai como vítima é um desserviço à Justiça das Famílias e a cultura jurídica que deve ser construída neste campo.

5 Comentários

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Muito bom o texto! Parabéns! continuar lendo

Pois então... Muitas coisas ficam escondidas, ofuscadas pela própria complexidade das relações humanas e das limitações das instituições.

Quase ninguém fala também que muitas mulheres que se dizem vítimas de relacionamentos abusivos são apernas pessoas imaturas que não podem ouvir um não como resposta. Aliás, essa é uma das características de pessoas com transtorno de personalidade borderline. E cabe dizer: os alienadores frequentemente se dizem vítimas de relacionamentos abusivos e também dizem que não são eles que afastam, mas as crianças que não querem o contato.

Também não podemos esquecer o caso da ex-paquita, que se auto-mutilou para tentar incriminar o ex-marido. A legislação estimula isso ao dar a palavra da mulher um valor quase absoluto. Não fosse a gravação o ex-marido da ex-paquita talvez estivesse preso hoje. continuar lendo

Só esqueceu de deixar o feminismo de lado, porque existem muitos pais os quais estão na mesma condicão e são acusados por mulheres irresponsáveis de alienacão parental continuar lendo

Texto muito esclarecedor! Ainda não conhecia o termo Alienação Parental autoinflingida. continuar lendo